12 mortos. 190 milhões de feridos. Foi essa a capa do Diário de Pernambuco sobre a tragédia em Realengo. Referências a Columbine, fotos estampadas nos jornais, especialistas criando hipóteses, como ele agiu, como a mídia deve agir, o que deveria ou não estar na capa dos jornais, como isto poderia interferir negativamente,servir de espelho,causar o efeito contrário; No fim das contas um fato: a situação trágica não poderia assim ter sido sem uma teia de condições emaranhadas entre o desequilíbrio doentio do assassino, abandonos na vida e mais algumas marcas que fizeram ele ser quem foi. A facilidade com que se compra uma arma? A falta de um segurança na escola? Transformar nossos colégios em réplicas americanas? Detectores de metal? Fundamentalismo islâmico? Bullying? Qual foi a causa? O que fazer para evitar? Ah, temos um outro fato: a nossa ânsia, quase que automática de simplificar e unificar o problema. Incomoda a conclusão comum à qual sempre chegamos, incomoda a angústia acabar no pensamento impotente. Dói admitir que quem estampou as capas do jornais foi fruto da nossa sociedade. Foi doença, foi biológico, foi desequilíbrio, foi caminho livre para fazer o que fez. Mas foi cria nossa. Foi a mágoa acentuada pelo tratamento que demos a alguém quando ele ainda estava em formação. Até quando isso pode ter interferido? Quanto cada uma das pessoas que passaram por sua vida poderiam ter feito para que a história seguisse um novo rumo? Mais simplificação dos problemas? Mais foco à um erro que seria a falta de precaução nossa? E já é certo, isso? E pesou tão pouco o tratamento e a exclusão sofrida, num fim trágico? Está perfeitamente claro e óbvio que nossas cicatrizes não nos transformam em perigo à sociedade, em assassinos em potencial. Está claro que isso não é único, bastante, suficiente. Ninguém nega o desequilíbrio de alguém que pode ter agido desta forma. Mas até os pragmáticos, os que crêem em uma fórmula em que vigilância é igual à segurança, até eles, simplesmente não podem ignorar que excluímos. E que perdemos de vista as conseqüências que este tratamento pode gerar na vida de uma pessoa. Saber que desequilibrados usam religião, se apegam à realidades paralelas e inventam pretextos para agir não anula o peso da exclusão, do que é a intolerância ao diferente. Não adianta. Não temos vocação para réplica dos EUA. Isso não nos deixa imune à nada. Até quando vamos simplificar as coisas? Até quando vamos exteriorizar o núcleo dos problemas e excluir nossas ações do olho do furacão? Não. Mais uma vez, detectores de metal não são soluções ambulantes. O que precisamos detectar vem antes das armas. Vem antes do ensino médio. Vem antes, e durante, a escola. Vem de casa, dos relacionamentos. Vem das reações. Dos motivos das reações. Vem dos nossos atos, da gasolina que jogamos sobre a miséria sentimental alheia. Não. Não metais. Detectores de outra coisa, desse invisível que torna tão complexa essa questão. Do que é ignorado, até crescer, explodir...e nos fazer impotentes. E nos fazer 190 milhões de feridos.
domingo, 10 de abril de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010



Foi lendo a um texto do blog sindromedeestocolmo.com que soube que a TRITON, uma marca muito conceituada, foi proibida de veicular imagens de seu editorial pois elas foram consideradas ofensivas, algo que fazia apologia à violência de sexo. Eu poderia explicar o que essas imagens querem dizer, mas vou colocá-las para que tirem suas próprias conclusões. Eu tenho certeza que para muitos a primeira coisa que se passará pela cabeça será: NADA A VER. EU achei uma dose de exagero ao ler a notícia superficialmente, mas, ao menos pra mim, ver as fotos me fez concluir que foi um trabalho de muito mal gosto. Eu nunca o aplaudiria. E é nesse ponto que quero chegar. Sei que quem foi contra isso, sobretudo gente ligada ao meio da moda, deve estar com a boca cheia para falar em liberdade artística, liberdade de expressão, para falar que quem censurou não entendeu. Mas eu, embora ache justo e necessário essa proibição, queria olhar as coisas por outro ângulo – também. Queria entender o porquê. Por que é necessário censurar e tirar isso da mídia, por que pessoas tiveram que denunciar? Por que a gente e geral não é capaz de filtrar isso sozinha? É comum que Editoriais artísticos joguem com a questão de domínio sexual. Mas não se pode perder a linha tênue entre isso e mal gosto. Porque eu estou falando de mal gosto, antes de crime, de absurdo, que é.Basta bater os olhos pra ver que aquilo é violento e ofensivo. No entanto é aplaudido. A própria TRITON não reconheceu seu erro, como eu pude ver no blog, tentou justificar o injustificável. Abre aspas para o que foi dito: “uma campanha de visão artística e sem qualquer tipo de apologia à violência contra a mulher. Justifica ainda que a tendência mundial de provocar o público com imagens que brincam com tabus e estereótipos ganha as páginas das revistas de moda mais conceituadas do mundo, obtendo resultados razoáveis.”
Eu não entendo nada de moda e de modo geral procuro lembrar da minha falta de conhecimento antes de criticar, pois sei que há um mundo de estéticas, técnicas e profissionais que desconheço. Mas, honestamente, é preciso fazer isso pra vender roupa? A VOGUE e tudo o que é importante acha bonito esse tipo de ensaio e é assim que as marcas tem que se comportar? Esse visão livre e artística que não me pertence é tão diferente assim?
Em outra palavras: A vogue e toda a arte que não compreendo é tão subjetiva e diferente que ser provocativo e moderno é ser isso\ Desculpem, a mim parece primitivo e vergonhoso. Desnecessário. Parece absurdo o fato de que coisas como essa pareçam arte moderna, que quebre o óbvio, que provoque. Há muitos, muitos outros jeitos de provocar. De provocar com inteligência.
Esse mundo é tão diferente assim que compreende violência-crime como tabu e estereótipo?
Eu realmente, mesmo tentanto ponderar e me colocando no meu papel de leiga acho que não. E acho que é um atentado ao meu cérebro dizer o contrário. Isso é absurdo, é adestrar pessoas pra engolirem qualquer coisa. Isso é fato e não preconceito para quem enche a boca pra dizer que o mundo da moda é inútil e de gente burra.
A proibição pra mim foi justa. Já engolem muito isso lá fora. Não precisamos engolir no Brasil. E se eu tivesse que fazer um pedido pra 2011 agora, seria que nós tivéssemos mais discernimento pra não engolir tudo o que está na nossa frente, pra olhar nas entrelinhas, pra saber de onde vieram nossos conceitos de belo e legal. Para revê-los.
Toda a estrutura de publicidade que tem uma marca, deve tratar bem da sua imagem para agradar seu público. E isso se molda pelos interesses do público. Se a visão feminina se abre e muda, eles são obrigados a mudar.
Um ótimo ano novo!
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
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Eu estava ouvindo algumas coisas sobre tráfico. Mais valores, dados, informações específicas. Eu ouvi 400 bilhões. Bilhões! Como sendo um valor movimentado pelo tráfico.
Eu acho que gente que fuma maconha e é trabalhador, não viciado, saudável, pai de família e tudo o que a sociedade considera ‘normal’ não é responsável por 400 bilhões em movimentação financeira.
Quando a gente fala em legalização da maconha e etc a minha impressão é que a gente fala querendo resolver um grão de areia numa tempestade de areia. Ou em outras palavras um, dentre tantos bilhões.
Quantas vidas cabem em 400 bilhões ? Quantos vícios e quanta destruição ? Quantos tipos diferentes de droga ? O quão devastador é o poder que 400 bilhões tem trabalhando pelo perigo do vício ? Do comprometimento da saúde, da saúde mental.
Adivinhem, eu voltei à questão para a qual curiosamente sempre volto quando penso em problemas grandes nesse país: educação.
Legalizar acabaria com o tráfico ? Não. O buraco é mais embaixo. Seria droga a 5 reais pra quem pode comprar e o tráfico vendendo a um real. Os pobres garantiriam a vida (e soberania) do tráfico.
A maconha é tratada como uma droga leve, nada do que dizem sobre influenciar alguém a usar outras drogas. Concordo.
Mas legalizar daria discernimento a quem é pobre, sem educação e sem oportunidade pra pensar em que droga é mais ou menos perigosa ?
Os motivos que levam as pessoas a se drogarem são diferentes. Tão diferentes quanto suas oportunidades e contas bancárias. Tão diferentes quanto suas classes, aqui no Brasil.
Pensar em legalizar e ver que supervalorizamos o poder positivo que teria essa legalização. Voltamos ao que tanto é desagradável: gente sem educação e a menor perspectiva. Papo de gente de esquerda, maconheiro ou o que você queira dizer. Mas a gente tem que engolir o que é coerente, o que ta debaixo do nosso nariz. Caso contrário o babaca é aquele que insiste em se mostrar ignorante. Mas o assunto desse texto não é legalização, caso fosse eu poderia citar N questões sobre isso, argumentos e estudos.
É sobre o fato de discutir legalização, UPPs, mais ações policiais e ver que no fim das contas nenhum desses é o cerne da questão. São reparos, remendos. E ainda discutimos se esses REMENDOS são eficazes. O buraco é tão mais embaixo. Está tão distante de uma favela e tão mais perto da sua consciência, de quem você vota, de como enxerga educação e questões fundamentais na sociedade. E de repente, toda a discussão sobre legalizar, pacificar (...) parece pequena, incoerente...e os FATOS gritam na nossa cabeça: ei, você ta olhando pro lugar errado. Não discutimos o preconceito de algum trabalhador que fuma seiláoque ocasionalmente. Estamos falando majoritariamente de drogas pesadas que destroem gente. E vai perguntar a essa gente se elas gostam dessa situação. Vai perguntar se ela sabe do que elas gostam, pelo que lutam, por que estão naquela situação. A maior covardia que podemos cometer é privar alguémm de se educar basicamente, é tapar seus olhos e roubar de pessoas o direito, a possibilidade de ter discernimentos, desejos.
Isso é uma questão HUMANA, é coisa de ser HUMANO ver o quão mal essas coisas fazem a gente igual a gente. E é DEVER de hu-ma-no se preocupar e não se omitir politicamente. Qual a diferença moral entre alguém ser visto como ruim ou ser omisso politicamente\ A famosa frase: “o problema de quem não gosta de política é que vai ser sempre determinado por gente que gosta.” Faz todo sentido aqui. Se tu não gostar, vai ter outro que gosta E MUITO, por ele e por você.
Uma vez eu li Cristovam Buarque dizer uma verdade assustadora: alguns dos filhos dessa sociedade estão a beira de instalar chips no cérebro, enquanto outros (...)
Tem gente que não sabe ler um texto. E em breve esses dois diferentes tipos de filhos do país não vão se reconhecer. Vão ser, como interpretei do texto de Cristovam, incapazes de se comunicar!
De alguém que sabe que esse assunto não tem fim,
Eu tenho 16 anos, não sou cientista política, nunca pisei numa favela e segundo meu pai não sei muito da vida. Meu objetivo não é nenhum a não ser transmitir minha opinião e quem sabe encontrar alguém com a mesma, ou diferente, ou fazer pensar. Dessas coisas que só texto faz.
A quem rema contra a maré, como disse uma professora nesse segundo no profissão repórter, a quem pode fazer esse país funcionar e ser responsável por dar a capacidade de discernir às pessoas.
Obs.: só uma coisa : de todos os meus amigos nenhum discute política, nem assim como eu, com medo de errar e falar bobagem. E a gente ta no grupo 1 de filhos do Brasil: os agraciados com a educação, o poder de discernir e etc. Imagina quem ta do outro lado da linha.
domingo, 14 de março de 2010
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Parem de falar em desgraças naturais como se não fosse com a gente. Como se fosse culpa do capitalismo, das grandes empresas. Porque nós aceitamos essas grandes empresas. Nós queremos o máximo de divisão social possível, com uma vontade avassaladora de ficar na parte de cima dessa divisão. Esquecendo que alguém sempre terá que ficar embaixo. Ignorando isso. Além do que, este não é o caso. Parem de fantasiar o fim do mundo. Pior do que o fim é a realidade caótica. É não matar e deixar sofrendo. As placas tectônicas se chocam como sempre. O sol brilha como sempre. E isto somente continua a acontecer. Um terremodo pode ser o mais forte do mundo e ninguém nem ficar sabendo porque aconteceu no deserto do Saara. Ou ninguém morrer porque aconteceu no Japão, que de terremoto entende e é bem acostumado. Não houve desgraça natural. Não houve o maior terremoto da história. Houve a resposta ao nosso descaso. Com o que sempre era desgraça. Com o sofrimento, com tudo o que não parece humano. TUDO. Foi só uma resposta, a todos os avisos para os quais tapamos os ouvidos e fechamos os olhos. No Haiti quase ninguém tem água encanada. Quase ninguém tem energia. Quase ninguém tem emprego. Quase ninguém tem dignidade, DESDE ANTES do terremoto. Que veio selar, assinar o atestado de exclusão do país. Por responsabilidade nossa. Não há por que inventar um desespero e criar questões do tipo ‘o que está acontecendo’? Isso nunca foi visto! Porque é mentira. Porque não foi a natureza quem foi malvada conosco. Não foram desastres maiores. Foram áreas sucetíveis à desastres que hoje são maiores. E tendem a crescer. Áreas excluídas. Pra que serve um livro onde se tem comida? Onde fica a beleza dos direitos humanos onde sempre se foi segregado? É difícil fazer alguém desligar o ar condicionado? Muito difícil? Imagine então o quão difícil é fazer alguém deixar de desmatar uma área pra criar gado, vender e ter O QUE COMER. O resultado são vários mundos dentro de um só. Um monte de prédios frágeis, que caem com qualquer tremor, que não deviam ser construídos, mas que são. E essas empresas que constroem ilegalmente fazem a festa, porque o povo não tem opção. Essas empresas estão na parte de cima da divisão que insistimos em fazer do mundo. Junto com outras pessoas. Junto com as pessoas que tem dinheiro, posse de armas e tudo o que seja agressivo (agressivo = poder, não há poder de conhecimento, nem nada mais). Essas mesmas pessoas vão pegar todas as toneladas de alimento que são jogadas em campos abertos, caridade dos países desenvolvidos e solidários. SE nem todo mundo tem acesso á água, energia, educação. Nem todo mundo vai tê-los após uma desgraça. É claro que isso vai continuar na mão de uma minoria. Mesmo que tenha para todos. Nossa especialidade é concentrar. Se tiver muito a gente concentra mais e mais. Para que só uma minoria tenha acesso à isso. Enquanto isso acontece os países onde existe um monte de casas com jardim na frente e banho de mangueira para filhos limpos e saudáveis, se estapeiam para “ajudar”. Para decidir quem vai dar mais e primeiro. Quem vai ter mais espaço na mídia. Quem vai, no fim das constas, poder dizer que ajudou.
Quantos Haitis existem no planeta? Quantos são aqui?